A Qualquer Custo é a dura realidade americana movida pelo ódio

Somos movidos pelo ódio. Você pode discordar, mas, no fundo, todos nós somos. É apenas quando esse sentimento vem a tona que ousamos e vamos além do que era aceitável pelos padrões ou pela sociedade. Quer um exemplo disso na cultura pop? Walter White, o pai de família que nunca fez nada de útil pra si mesmo durante toda sua vida e, movido pelo ódio, resolve virar o maior traficante de metanfetamina da América. A Qualquer Custo (Hell or High Water) tem muito disso.

Em A Qualquer Custo, acompanhamos dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado, que perderam a fazenda da família em West Texas para o banco e, movidos pelo ódio e um sentimento de vingança, decidem assaltar o Texas Midlands Bank que ferrou com eles, para poder recuperar a fazenda e ter estabilidade financeira.

Em alguns aspectos, o longa me fez lembrar de Onde os Fracos Não Tem Vez. Talvez pelo fato de ser um velho-oeste moderno. Mas o ponto do filme é outro – ou quase… A crítica por cima dos lugares devastados, onde quem manda não é a polícia e tudo foi corrompido por conta dos bancos é ótima e reflete muito bem o cenário atual do Texas e de outras regiões escondidas dos EUA.

O ódio está presente em todos porque ninguém tem nada e tudo que têm, o banco toma. Ninguém novo vai pra lá. Ninguém quer ir num lugar que não avança e todos são violentos – nem sempre por conta das armas, em diversos casos na própria linguagem/jeito de agir, como aquela senhora que só servia bife e tinha ódio da única pessoa que pediu algo diferente no restaurante.

O filme abraça o ódio, o poder – ou seria a falta de poder? – e a luta pela sobrevivência de uma maneira crível e com personagens pés no chão. A dupla de irmãos, interpretados por Chris Pine e Ben Foster, que roubam só o suficiente para conseguir pagar a conta da mãe é o reflexo do povo que diz “imposto é roubo, sonegar é certo” ou, no que encaixa com o próprio filme, um reflexo do senhor que comenta no restaurante que o banco que tirou tudo dele finalmente foi roubado.

Em certo momento do filme, me questionei sobre minha própria moral. Eu estava ali, torcendo para os bandidos, afinal os caras foram vítimas cruéis de grandes corporações, não seria o troco uma “boa coisa”?

Em contra-ponto aos bandidos, temos Marcus Hamilton (brilhantemente interpretado pelo magnífico Jeff Bridges), um delegado racista que, assim como boa parte da população, acredita que não é racismo fazer apenas piadas, mesmo que essas piadas façam com que seu parceiro, Alberto Parker (Gil Birmingham), não se sinta bem. Um reflexo de um povo atrasado, que não evolui nem ao menos mentalmente.

É duro aceitar a realidade triste e cheia de ódio do Texas. Uma realidade escondida por trás de outros estados mais poderosos e desenvolvidos. A Qualquer Custo é um tapa na nossa cara, mostrando que nem sempre a justiça é realmente justa e o ódio pode levar um homem a salvar sua família.

Share this post

Gabriel Gnann

Gabriel Gnann

Criador do Entretenimento Ácido e essa não foi nem a minha pior ideia! Se eu não estiver reclamando de alguma coisa, pode ter certeza que há algo muito errado comigo.