CCRS | Um resumo da ComicCON RS 2016

O evento reuniu fãs de quadrinhos no último final de semana!

A sexta edição da ComicCON RS aconteceu neste final de semana, dias 20 e 21 de agosto, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. O evento já é tradicional no estado e vem crescendo a cada ano, sendo uma das paradas mais importantes para amantes de quadrinhos no país.

Eu estive presente nas duas primeiras edições da ComicCON, em 2011 e 2012, quando ainda acontecia no colégio Marista São Pedro, em Porto Alegre. Porém, esta é a primeira vez que participo do evento em sua segunda e maior casa, o prédio da UlbraTECH, parque tecnológico da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas. É bem interessante acompanhar todo seu crescimento, à medida que se pode observar crescer a valorização do trabalho em quadrinhos feito aqui no país. Te conto um resumo do evento neste post – e juro que tentei ser breve!

14095823_1039261362859341_7413993347038896749_n

Fotos de Maurício Mussi

Pude conversar com vários dos expositores do artist’s alley, que reuniu grandes talentos brasileiros, e o mais legal de eventos desse gênero é que a parte mais importante acaba não sendo a venda – claro que é bom vender, afinal esse é o ganha-pão de muitos ali presentes –, mas ter um espaço para mostrar sua arte, conquistar um novo público, fazer amigos e muitos contatos. Eu mesma voltei cheia de cartões de contato na mochila. Tem tanta coisa boa na área de quadrinhos e ilustrações sendo feita aqui no Brasil e eu fico feliz demais que estejamos aprendendo a valorizar a arte local. #SupportYourLocalArtists

Inclusive, a ComicCON RS tem a sua própria forma de valorizar os grandes nomes do quadrinho nacional: a Medalha Renato Canini. Em 2016, os homenageados com esse baita prêmio foram Afonso Andrade, coordenador e curador da FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte); Ana Koehler, ilustradora, que lançou em 2015 o livro Beco do Rosário e também é curadora da FIQIvan Reis, ilustrador, que já passou pelos estúdios Mauricio de SousaDark HorseVertigo Marvel, e atualmente está na DC, onde conquistou o público ao desenhar Superman, Lanterna Verde, Arqueiro Verde e ter feito parte do time artístico por trás de Liga da Justiça, com Rod Reis e Joe Prado; e Santiago, ilustrador e chargista renomado mundialmente, que tem seis livros publicados, entre eles Conhece o Mário? Retroscópio.

14045749_1040210922764385_3372221136107771670_n

Os convidados de honra da edição foram David Lloyd Juan Ferreyra. Ambos foram super solícitos com o público e, além de estarem no artist’s alley, participaram de sessões de autógrafos e painéis. Ferreyra é um dos nomes envolvidos no Rebirth da DC Comics e assina Arqueiro Verde. Entre os painéis que ele participou estão o painel sobre a nova fase na DC, ao lado de Ivan Reis e Joe Prado, e o painel sobre terror e fantasia, já que ganhou destaque no mercado estrangeiro com a série de horror Colder, que foi, inclusive, indicada ao Eisner de 2014.

14045986_1040152249436919_3336142947805556755_n

Lloyd é mais conhecido por seu trabalho com as artes de V de Vingança e por eternizar a máscara com face de Guy Fawkes, item da cultura pop que o povo ama. Além de um painel próprio para falar do clássico, ele participou de um painel sobre quadrinhos digitais, já que comanda o projeto Aces Weekly. O sorridente britânico foi a grande atração do evento, com uma fila endless em sua sessão de autógrafos. Apesar de super solicitado, ele tratou todo mundo bem – inclusive, esta que voz fala. O cara é simpático demais! E, furo de reportagem, é um sherlockian. Enquanto fazia uma sketch, ele confessou que curte a série da BBC – e o personagem em geral – e ainda falou que curte o Benedict Cumberbatch. Conversando com um amigo meu sobre a importância política de sua obra V de Vingança, ele disse estar ciente da situação política brasileira e, inclusive, já conhece o nosso presidente interino Temer. (Só faltou um Fora Temer, mas isso está implícito no meu coração.)

14068433_1039154222870055_6379038063039799540_o

E, falando em painéis, o evento reuniu bons deles em seus dois palcos. No sábado, tivemos um painel importantíssimo, “O poder das heroínas: de Mulher-Maravilha a Miss Marvel”, que reuniu as brilhantes Kaol PorfírioCris Peter, Letícia PustiAna Clacla. As gurias já tinham participado de um painel semelhante durante a ComicCON RS Pocket, que precedeu o evento. A representativa das mulheres na cultura pop é um tópico de importância absurda e é uma tecla que precisa ser muito batida. Felizmente, o girl power esteve presente e as mulheres marcaram presença em diversos painéis e no artist’s alley.

14021653_1039344469517697_4247905615823777495_n

O domingo recebeu um painel que esteve perto de me levar às lágrimas. Em “Produzir para seguir em frente: quadrinhos como forma de superação”, Letícia Pusti Rafael Correa puderam falar um pouco de seus filhotes, Another Art Book Memórias de um Esclerosado. Letícia foi diagnosticada em 2012 com depressão e ansiedade. Depois de guardar a doença em silêncio por muito tempo, encontrou no desenho uma forma de terapia. Ela sempre foi muito exigente com seus desenhos, se autossabotava e achava que não era boa suficiente. Com a ajuda da família e amigos, aprendeu a lutar a doença e com o tablet que ganhou de um amigo começou as artes digitais. A página, que hoje tem mais 86k de curtidas, começou como uma tentativa de pegar mais leve com suas próprias cobranças. Suas tirinhas atualmente fazem um baita sucesso e é justamente na simplicidade que ganham as pessoas, pois falam sobre vivência, de verdades da artistas, medos, ansiedades… E o desenho é belo e simples.

Sobre a questão da simplicidade no desenho, algo que sempre deixou Letícia inquieta e achando que não era boa suficiente, Rafael comenta que, para ele, o trabalho rebuscado se perde. Diagnosticado com esclerose múltipla em 2010, teve o lado esquerdo de seu corpo afetado pela doença. Canhoto, começou a desenhar com a mão direita e aprendeu a aceitar o erro, a pegar mais leve nas cobranças em sua arte. Em seu trabalho, ele usa a linguagem autobiográfica e narra situações cotidianas. Ele descobriu nas tirinhas uma maneira de conhecer a si mesmo, foi uma oportunidade de autoconhecimento. Sobre o trabalho deles ser visto como clichês de autoajuda, Rafael comenta: “faço quadrinhos para me ajudar, me entender”.

Fernando Gil, que conduziu o painel e é um dos organizadores do evento, também sofre de esclerose múltipla e compartilhou um pouco de sua vivência com a doença e a vida de artista de quadrinhos. Inclusive, comentou sobre como a doença faz com que se “acabe prestando mais atenção nas pequenas coisas”, o que acaba sendo um grande combustível. Os três são artistas do cotidiano e grande parte das inspirações vem de conviver e observar. Letícia comenta que seus quatro personagens presentes nas tiras são uma mistura de gente que ela conhece ou observa: ao misturar essas pessoas, é o lado comum de cada uma que as torna extraordinárias.

Mais do que ajudar os próprios artistas, estes são trabalhos que ajudam outras pessoas e servem de inspiração. As tirinhas de Letícia sobre depressão e ansiedade fizeram com que pessoas entendessem essas doenças e que deixassem de fazer pouco caso, buscando ajuda e diagnósticos adequados. Além de um alerta, são um relento para quem passa pelas mesmas situações – e é muito bom se sentir compreendido. E, se ajuda não vir pelos quadrinhos, que a trajetória deles sirva de inspiração.

novo

O painel da Graphic MSP foi um dos mais aguardados do final de semana, contando com o editor Sidney Gusman e os aristas Bianca Pinheiro, Cris Peter, Danilo BeyruthRogério Coelho na mesa. Rogério assinou Louco – Fuga, que já vem sendo considerada a melhor graphic novel do estúdio. Lançada no final de 2015, o volume atrasou bastante pra sair – estava previsto pra ser o primeiro lançamento do ano e foi o último – tamanha a exigência do artista com seu trabalho. Para trabalhar com Louco, Rogério se inspirou em um parente que foi internado, com o qual ele acabou vivenciando alguns surtos, incluindo passeios nus ao ar livre: “E o que separa um louco de um gênio?”, comenta.

Embora Sidney não tenha deixado escapar nenhum detalhe do novo lançamento da editora, que será uma história da Mônica assinada por Bianca Pinheiro, a artista de Bear pode comentar um pouco da sua entrada na família e dos desafios de contar uma nova aventura da “primeira dama do quadrinho nacional”. Mônica – Força, a graphic novel com “o maior desafio da vida da Mônica”, será lançada essa semana. Astronauta III é também um dos lançamentos de 2016 e Danilo comenta que já entregou a sua parte – e o fez bem antes do prazo. Ainda falta Cris fazer sua arte e dar vida e cores à graphic, mas ela deve ser lançada na ComicCON Experience.

A Graphic MSP é um grande passo para os personagens de Mauricio de Sousa e já conta com onze volumes publicados. Sucesso não só no país, Astronauta e Bidu já estão saindo no mercado europeu, que deve receber novos títulos em breve. O projeto de Sidney Gusman trouxe nova vida a personagens amados pelo público, além de oportunizar que tais personagens sejam vistos pela primeira vez em live-action – com o filme anunciado na CCXP do ano passado, que irá adaptar Turma da Mônica – Laços, de Lu e Vitor Cafaggi, e tem previsão de lançamento para 2017.

MonicaForca007

MonicaForca010

Desde 2011, todas as edições da ComicCON RS foram encerradas com um painel sobre Batman e esta não foi diferente. Em “Batman: as diferentes faces do Morcego”, Edson Gandolfi, Vinícius 2Quadrinhos, Maressah Sampaio e Claiton Silva elegeram seu Batman favorito, sem muito consenso, como era de se esperar – embora Michael Keaton tenha sido um forte candidato. Além disso, comentaram as últimas aparições do Morcego nos cinemas, em Batman v Superman Esquadrão Suicida. Claiton comenta que, apesar de comprar o Batfleck, não consegue acreditar em seu Bruce Wayne. “O problema do Batman em BvS é o que está ao redor dele”, finaliza Edson. Todos acabam concordando que o que falta nos Batman do cinema é o espírito de detetive e que a versão de Animated Series é uma das melhores adaptações e que traz todo esse espírito. O painel também foi interessante por concluir que Batman 66, que nos trouxe uma versão pop art do Morcegão, é a melhor adaptação dos quadrinhos já feita, tendo em vista que foi produzida na era de prata. Sem falar que Adam West e sua trupe foram responsáveis por popularizar o personagem para o público que não consumia quadrinhos. Sobre o futuro de Batman no cinema, o povo só espera que a DC ache o rumo e não vacile com o personagem interpretado por Ben Affleck, que tem potencial para ser o melhor Batman do cinema.

Uma parte bem bacana do evento são os cosplayers. No mesmo dia da ComicCON RS acontecia, em Porto Alegre, o Anime Buzz e Festival do Japão. Então, a “concorrência” dividiu o público do cosplay. Porém, quem compareceu ao evento fez bonito! De Jedi a super-heróis, crianças e adultos viveram seus personagens favoritos por um dia.

13934668_1040152146103596_1514676628840947180_n

13996249_1040153052770172_2125855386741332369_o

14067490_1040153079436836_646151307916986028_n

14079524_1039225656196245_2464113008067242074_n

A ComicCON RS 2016 foi um baita evento. A convenção vem crescendo muito e pode crescer muito mais. É claro que pode melhorar em alguns aspectos. O evento teve algumas questões organizacionais e informações cruzadas, mas acredito que isso servirá de aprendizado em edições vindouras. Quando se olha a big picture, esses pontos acabam sendo bem pequenos, mas melhorias sempre podem ser feitas. O evento foi ótimo, as pessoas foram maravilhosas e extremamente educadas e eu espero ansiosa pela sétima edição. Fica ligado aqui no EA, que em breve sairão entrevistas incríveis que eu tive a oportunidade de fazer. Não perde!

Share this post

Jennifer Baptista

Jennifer Baptista

Motherflippin crazy fangirl. Gosto de filmes de navinha, viagem no tempo, robôs gigantes alienígenas e alienígenas que não são robôs gigantes. Prefiro séries a pessoas e queria ser a River Song.